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Lunar — Laboratório de Podcasts Narrativos
← Voltar para Outros CarnavaisEntrevista completa · 2024

Georgia
Chagas

A passista que quebrou paradigmas discute corpo, liberdade, sonhos e frustrações que atravessam o carnaval carioca.

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Georgia Chagas. Foto: arquivo pessoal.
Georgia Chagas. Foto: arquivo pessoal.
Giovanna e Lorena entrevistando Georgia no Lunar. Foto: Andriolli Costa.
Giovanna e Lorena entrevistando Georgia no Lunar. Foto: Andriolli Costa.

O carnaval vem de família

GiovannaPara começar, Georgia, atualmente você trabalha com o quê?

GeorgiaEntão, é, eu trabalho com RH. Na verdade eu comecei a trabalhar na empresa que estou hoje graças ao Carnaval. Eu participei do Concurso no início de setembro de 2023, mais ou menos. E aí dia 10 de setembro se comemora Dia Nacional do Combate à Gordofobia. E o grupo tem umas iniciativas muito legais assim de conscientização, diversidade e inclusão. E eles sempre estão procurando pessoas para poder dar palestra, workshop... Eles me chamaram para dois workshops e eu aproveitei e perguntei se eles não tinham uma vaguinha sobrando. Aí eu fiz a entrevista e graças a Deus eu passei! E aí eu tô lá trabalhando. Já fui musa do Carnaval deles...

GiovannaEles gostam de carnaval?

GeorgiaGostam muito, meu Deus. O diretor de RH, ele é Imperatriz doente, sabe? Imperatriz roxo, de verdade. E a maioria que trabalha lá é envolvida com alguma coisa de Carnaval ou com arte, de alguma forma.

GiovannaE como o carnaval surgiu na sua vida?

GeorgiaA minha família sempre foi envolvida com o carnaval. Meu bisavô era da Portela, tocava na bateria, e sempre levou os filhos e netos para conhecer a escola. Só que meu pai nunca foi muito chegado na Portela. A coisa dele era com a Inocentes de Belford Roxo, porque nós somos de Belford Roxo.

Minha mãe, antes de conhecer meu pai, desfilava na Caprichosos de Pilares, que é o bairro onde a gente reside tem uns 15 anos, mais ou menos. Eles se conheceram num carnaval, se apaixonaram e ele levou ela para morar em Belford Roxo.

Depois disso ela continuou desfilando, mas até então o último carnaval que ela desfilou foi comigo na barriga, ainda grávida. Ela foi destaque num carro da Caprichosos em 2001, quando a escola falou sobre Goiás. [Goiás, Um Sonho de Amor No Coração do Brasil] é um dos sambas que meu pai mais cantou para mim. Eu sou a caçula de seis irmãos, então esse desfile foi marcante para todo mundo.

Desfile da Caprichosos de Pilares sobre Goiás, o último da mãe de Georgia (2001).
Desfile da Caprichosos de Pilares sobre Goiás, o último da mãe de Georgia (2001).

Eu digo porque eu cresci sambando já. Eu pegava o salto da minha mãe e ia para o meio da rua. Eu ficava lá sambando, dizia para todo mundo que eu ia desfilar na Sapucaí um dia...

Só que, para mim, era um sonho muito distante. Como minha mãe e meu pai pararam de desfilar assim que eu nasci, eu não tinha muita conexão com Escolas de Samba, mas eu gostava muito de carnaval. Então, aos 7 anos mais ou menos, foi a primeira vez que eu fui numa oficina de carnaval na quadra da Inocentes. Na semana seguinte eu fui na quadra da Beija-Flor e falei: “Cara, é isso que eu quero mesmo na minha vida!”.

Dificuldades

Depois de um tempo, minha mãe acabou separando do meu pai e nós fomos morar pela primeira vez em Pilares. E a rua onde eu moro é muito próxima da Caprichosos de Pilares e de uma outra escola que é a Difícil é o Nome. Literalmente, ela fica na rua da frente. Então da minha casa dá para escutar tudo. Todo domingo e toda quarta-feira à noite tinha ensaio da bateria e lá de casa eu ficava escutando: “Meu Deus, eu preciso ir lá, eu preciso ir lá sambar”. E eu ficava treinando dentro de casa. Imagina, pequena demais, desse tamanhinho, treinando dentro de casa como se eu soubesse fazer alguma coisa, né? E aí um dia, depois de insistir muito, muito, muito para minha mãe, ela falou: “Tá bom, vou te levar lá!”.

Antes de querer ser passista, eu queria muito ser porta-bandeira. Só que eu não tenho coordenação motora. Eu acho que só um lado do meu corpo funciona, só o lado direito. O lado esquerdo é muito ruim. No primeiro giro eu caí no chão, muito feio...

Eu fiquei durante um ano inteiro ensaiando, ensaiando, ensaiando, mas eu ainda não tinha idade suficiente para poder desfilar. A escola não tinha uma escola mirim, né? Mas eles me deixaram desfilando. Só que perto do meu aniversário de 8 anos, minha mãe voltou com o meu pai e aí a gente voltou para Belford Roxo. E eu nunca mais soube de carnaval.

Até 2010, que foi o ano que meu pai faleceu, eu realmente fiquei muito afastada. E quando ele faleceu, foi um baque para mim, porque eu era muito próxima dele. Na verdade, acho que tudo que eu aprendi até a primeira parte da minha infância foi com o meu pai. E a perda dele gerou várias consequências que até hoje, infelizmente, permeiam a minha vida e às vezes até me desestimulam, me deixam meio triste, abatida. Mas eu tento trazer tudo que ele me ensinou para conseguir continuar vivendo...

Os primeiros desfiles

No ano de 2011, eu assisti pela primeira vez um desfile ao vivo. Nós fomos para o Rio Branco. Nem lembro o que que era, acho que era um bloco, e aí falei “acho que tá na hora de voltar”. Mas tava muito cedo, eu ainda era uma criança, então eu não sabia muito bem por onde começar. Eu só retornei no final de 2013 para 2014, por meio de uma amiga minha. Ela me chamou para poder desfilar na Alegria da Zona Sul, que foi a primeira escola que eu desfilei na antiga série A, na Sapucaí.

Georgia desfilando na Alegria da Zona Sul (2016).
Georgia desfilando na Alegria da Zona Sul (2016).

Eu comecei a ficar muito interessada por Carnaval, eu queria fazer projeto em várias escolas, queria participar de várias oficinas... Tudo o que tinha eu queria participar, para conhecer um pouco mais da cultura, né? Porque a gente sabe mais ou menos como funciona. Mas ali na raiz mesmo, como é o dia a dia, o que o que precisa fazer durante o ano inteiro para conseguir construir um Carnaval de fato... É um mundo por trás.

E aí em 2013 eu fui na festa da Virada do Ano lá no Parque Madureira e teve a apresentação da bateria da Mangueira com algumas passistas-show. E aí eu lembro que uma delas se chamava Geórgia. E quando eu ouvi chamarem ela, eu falei: “Gente, não é possível, eu nunca conheci ninguém chamada Geórgia e agora eu conheço uma Geórgia que é do samba igual a mim?”. Cara, eu fiquei encantada, encantada, eu chorei. Falei, acho que é um sinal, é um insigh para eu poder voltar e tocar a minha vida fazendo parte do carnaval.

E dali eu passei a procurar projetos. Fiz projeto na Portela, no Império Serrano, mas eu ainda era muito muito crua, não tinha noção de nada de samba. E aí quando eu percebi que eu precisava ainda aprender muitas coisas, que somente uma ou duas horinhas de aula não iam me ajudar muito, comecei a pesquisar tudo que eu precisava saber na internet. Fui para a internet, via vídeos de várias aulas de passistas. Na época, as aulas que mais bombavam de vídeo era da Grande Rio e do Salgueiro.

Então, eu comecei a acompanhar dessa dessa época em 2016, quando a Em cima da Hora voltou a desfilar na Intendente Magalhães. Foi meu primeiro ano desfilando na Intendente e meu segundo na Sapucaí com a Alegria da Zona Sul. E foram dois anos muito marcantes para mim, porque a Alegria da Zona Sul falou sobre Ogum. Foi um desfile que até hoje é lembrado como forte, tocante para todo mundo que acredita em religião e essa questão da intercessão religiosa. E é um dos sambas que as pessoas acham mais lindos da escola. No ano seguinte, a Em Cima da Hora homenageou Nossa Senhora Aparecida, porque em 2017 se comemorava 300 anos de Nossa Senhora Aparecida... Nesse desfile, minha mãe saiu de baiana. Eu ajudei a colar a fantasia. Então eu fiz parte de um processo que para mim foi tão bonito que eu fico até arrepiada. Foi o desfile mais bonito que já presenciei na escola. Eu chorei do início ao fim. Eu nunca vi a escola daquele jeito

Minha mãe, depois que parou de desfilar não ligava muito. Ela só me acompanhava porque eu ainda era menor de idade, então eu não podia ir sozinha para as coisas. E aí a gente convenceu ela de ir lá e eu fui para o barracão, terminei de fazer a fantasia dela, que não estava pronta ainda. E aí foi uma correria que só, mas no final deu tudo certo.

Cartaz do enredo da Em Cima da Hora (2017).
Cartaz do enredo da Em Cima da Hora (2017).
Georgia saindo pela União do Parque Curicica (2017).
Georgia saindo pela União do Parque Curicica (2017).
Georgia com sua fantasia da Em Cima da Hora (2017).
Georgia com sua fantasia da Em Cima da Hora (2017).

A gente não conseguiu a colocação que a gente esperava porque a gente sabe que quando uma escola de samba está na Intendente é tudo muito mais precário. As escolas não tem a atenção devida, não tem um espaço devido para poder trabalhar. As próprias pessoas que constroem o carnaval na Intendente não são reconhecidas como verdadeiras criadoras de um Carnaval que é muito, muito tocante para todo mundo. Até porque é um Carnaval que você pode assistir de graça e tem várias escolas que já passaram pela Sapucaí que hoje estão lá na Intendente, né? E são escolas que tem muita comunidade.

Falta muito respeito, espaço e verba, porque é muito difícil se construir alguma coisa se você não tem dinheiro suficiente. Então acaba que você idealiza um desfile, você monta protótipo, você corre atrás de material e no fim de tudo o dinheiro que você tem não é suficiente para poder botar um carnaval na rua. Às vezes você não consegue conquistar tantas pessoas para poder chegar na escola e acaba perdendo pontos ali, pontos aqui. E isso desestimula.

Às vezes parece que nada vai se resolver. A gente nesses últimos anos deu para assistir muito disso, não somente na Intendente. Muitas escolas tendo problemas com acabamento de carro, acabamento de fantasias. Gente que entrega a sua fantasia para os outros... E isso tem se tornado muito mais comum do que a gente pensava que seria.

Corpo e espaço no samba

AndriolliJá aconteceu algo assim com você?

GeorgiaJá. No ano de 2017 foi o último ano que eu ia desfilar no Alegria da Zona Sul, porque a pessoa que diretora da Ala de Passistas me colocava para baixo na frente de todo mundo em toda oportunidade que tinha. E ela meio que me expulsou antes do carnaval, porque meu corpo não era compatível com o que ele queria apresentar e com o das outras meninas, então ficava desigual... E aí eu sempre estava presente em tudo, ia para os ensaios, os eventos que ninguém queria participar, ninguém botava a cara, mas no fim de tudo ele ainda me expulsou. Só que era a escola em que eu mais estava presente, né? Ai eu chorei muito, eu fiquei nossa desolada. Até que eu percebi que o problema não estava em mim. Então, depois de um tempo, no início de fevereiro, ele me deixou voltar para a ala com a condição de que eu pagasse na hora a roupa do ensaio técnico. Eu paguei e mesmo assim, no dia do desfile, ele deu minha fantasia para outra pessoa. E não foi só a a minha, tinha outras pessoas que ele fez a mesma coisa. Ele pegou o salto, pegou a roupa do desfile e deu para outras pessoas. Não é à toa que ele foi expulso da escola que ele era diretor, né? Tudo o que vai volta, Deus, muito obrigada, nunca fui triste!

LorenaVocê falou que lá no início você olhou a porta-bandeira. Naquele momento, você também olhou as passistas?

GeorgiaEu olhava, mas naquela época eu não em enxergava com um corpo para a ala de passistas. Porque já naquela época, para minha idade, eu era muito desenvolvida. Então o meu corpo era muito diferente das outras meninas, sabe? Eu via as outras meninas ainda bem pequenas, eu olhava para mim e ficava: “Não, não é isso, muito diferente”. E ainda que muitas porta-bandeiras sejam magras, tem hoje em dia muitas que são plus size, como a Ludmyla Paaltiel e a Cintya Santos da Mangueira. A Ludmyla hoje é porta-bandeira do Engenho da Rainha e é uma pessoa que eu acompanho muito, porque eu conheci ela num workshop que eu dei de samba no pé num instituto de dança. E eu não sabia que ela era porta-bandeira até ela me seguir na rede social. E eu vi que, de fato, a gente está tomando todos os espaços possíveis. E uma coisa que as pessoas sempre julgavam muito: quando alguém ficava ali no sobrepeso ou engordava, diziam que ela ia ficar pesada para poder executar os movimentos. Não ia ter força suficiente para poder carregar a bandeira ou para segurar fantasia ou coisa do tipo. Sendo que não tem nada a ver com o corpo que a gente tem.

A verdade é que eu sempre fui capaz. As pessoas nasceram capazes de qualquer coisa. A cultura que a gente vive faz com que a gente desacredite a todo momento que podemos conquistar alguma coisa na vida, né? E isso vai para além da arte, é qualquer coisa mesmo. Onde a gente pode chegar, quais lugares nós podemos acessar, com quais pessoas a gente pode se relacionar. Isso é muito triste, porque separa as pessoas dos seus próprios sonhos.

Georgia aprendeu no carnaval a reconhecer a beleza de seu corpo.
Georgia aprendeu no carnaval a reconhecer a beleza de seu corpo.
Cyntia Santos, porta-bandeira da Mangueira.
Cyntia Santos, porta-bandeira da Mangueira.

LorenaE quando você entendeu que ser passista era um lugar para você? Tinha outras meninas plus size quando você começou?

GeorgiaOlha, eu acho que até o momento em que eu me me percebi como uma mulher gorda, é, a única pessoa que eu tinha como referência no Carnaval do Rio de Janeiro era a Ingrid Tainá, que hoje é diretora da ala de passistas da Mocidade junto com o George Louzada, mas na época era passista da Tradição. E uma menina que não desfila mais, a Vitória, que era passista da Grande Rio. E eram as únicas pessoas que eu conhecia. Porque hoje as passistas que são plus size surgiram depois de um movimento que começou em São Paulo.

Hoje em dia melhorou. Mas parece que as alas possuem uma cota, só pode ter uma ou duas, mas não tá todo mundo fazendo a mesma coisa? Não está todo mundo sambando do mesmo jeito? Executando o mesmo passo?

Eles querem estipular que a gente não é apto para sambar, que não vai aguentar até o final. Mas qualquer pessoa que treina o ano inteiro vai conseguir cruzar a Sapucaí, independentemente do seu corpo. Se você não treinar, você não vai conseguir cruzar nem andando...

AndriolliVocê teve medo de não conseguir alguma vez?

GeorgiaNossa, todos os dias. Todos os dias, acho que até hoje. Eu sinto muito receio do que as pessoas vão falar, mas não por conta do meu corpo. Eu tenho muito receio do que elas vão dizer sobre eu merecer alguma coisa ou não, né? Porque com esse pré-julgamento desperta esse sentimento delas que eu não sou merecedor de estar em um lugar, porque tem outra pessoa que tem o corpo X que com certeza desenvolveria muito melhor do que eu. Sendo que às vezes a pessoa nem me conhece, só viu um vídeo meu de 10 segundos e tirou essa conclusão da cabeça.

Eu sinto que eu tenho que ser cinco vezes melhor do que alguém que já é bom. Que eu tenho que treinar todos os dias e ficar muito, muito, muito boa e aprender coisas novas e tentar executar coisas novas para que eu consiga comprovar que eu mereço estar no lugar que eu estou. Sendo que isso não é sobre mim, eu não preciso comprovar porque eu já cheguei lá, né? Se eu tô ali é porque eu realmente mereço alguma coisa...

GiovannaAs pessoas têm muita essa noção de que o carnaval é um espaço livre. Você pode fazer o que você quiser, todo mundo é feliz, aqui não tem problema, todo mundo se sente livre, o corpo é livre, né? E isso passa muito uma falsa impressão do que é de verdade...

GeorgiaExatamente. Eu acho que, desde que a gente tem noção do que é Carnaval, foi muito vendido que as “mulatas” que sambam tem que ser “tipo exportação”. São as únicas que podem fazer show, são as únicas que podem ser apresentáveis, mas desde muito tempo já não é assim. Vide que muitas Globelezas já tiveram corpos diferentes, tons de pele diferentes; muitas musas do Caldeirão do Huck já tiveram corpos diferentes também... E as pessoas ainda acham que toda sambista tem que ter um corpo específico. Que é o corpo que eles, lá fora, acham que toda carioca tem. Na verdade, parece que é uma regra. Se você é carioca, se você nasceu no Rio de Janeiro, você tem que ter esse corpo.

E ainda que o meu corpo sambe, ainda que o meu corpo execute alguma coisa, eu não sou só isso. Tem muita coisa além do samba, né? Eu acho que para estar no lugar que a gente está, a gente precisa não só adquirir muito conhecimento, mas estudar sempre sobre porque a gente está envolvido. Porque, cara, a cultura, o samba, a arte, a vida, a sociedade muda e evolui todos os dias.

As redes sociais são espaço de receber amor dos fãs, mas também ataques de haters.
As redes sociais são espaço de receber amor dos fãs, mas também ataques de haters.
Georgia Chagas, em imagem do roteiro ilustrado.
Georgia Chagas, em imagem do roteiro ilustrado.

Iemanjá na Portela

GiovannaVocê se sente livre?

GeorgiaAcho que não. Eu tenho quase certeza que não. Esse ano desfilando na Portela, quando o André Rodrigues veio com a proposta, ele me ligou para perguntar se eu me sentia confortável em desfilar assim, né? Porque eu acredito que, antes de você vestir qualquer pessoa, você precisa saber como é o jeito dela, como ela gosta de estar apresentada para as pessoas, enfim.

Então ele olhou minhas fotos, viu como eu gostava de me vestir, viu que eu não sou muito de usar roupa, não gosto de me esconder. Eu acho que eu passei muito tempo da minha vida me escondendo e hoje em dia eu quero mesmo botar um decote sim, botar uma saia curta sim, eu não quero saber de nada. Sempre faço isso.

E aí, no dia que ele foi entregar a fantasia para mim, eu já estava chorando na quadra. Porque nunca na minha vida me imaginei desfilando à frente de uma ala na Portela. E ainda mais representando uma entidade tão importante para a cultura do nosso país, que é Iemanjá.

E eu acho que essa questão de eu vir com os seios à mostra, foi muito do olhar dele. De trazer como referência a Iemanjá dos itãs antigos, onde as pessoas a reconheciam como uma mulher farta que amamentava quem ia até ela para se livrar das mazelas, da dor da vida. E ele me trazer com essa representação, e não colocar uma pessoa magra ou uma pessoa branca, de cabelos lisos marcou o carnaval de muita gente.

Quando ele trouxe uma Iemanjá retinta com barco na cabeça, com uma ala inteira em volta simbolizando o mar, e eu na frente... Cara, aquilo ali para mim foi simplesmente incrível. E eu senti muito medo, confesso. Perguntei para a minha mãe como é que ela se sentia de desfilar de peito de fora... No dia eu coloquei a fantasia e pensei “Meu Deus, as pessoas vão olhar para mim e falar: ‘Ih, tá doida, gente’”.

AndriolliFoi a primeira vez?

GeorgiaFoi a primeira vez. Mas agora eu não quero outra vida, não! Eu gostei! E é estranho porque, às vezes, as pessoas olham meu Instagram e ficam assim: “é você mesmo aqui?”. Mas aquilo ali é mais do que uma representação para mim, sabe? Está marcado na minha história, na minha trajetória. Foi um passo importante que eu dei na minha carreira dentro do samba, porque eu não me imaginava nem tão perto conquistar as coisas que eu conquistei a partir do concurso, né? Que foi um momento importante na minha vida, né?

Georgia como Iemanjá na Portela (2024).
Georgia como Iemanjá na Portela (2024).

A Corte do Carnaval

GiovannaComo foi esse concurso?

GeorgiaFoi o concurso para a Corte do Carnaval Carioca, organizado pela Riotur, em 2023. Foi determinado pela Liesa e Riotur que todas as escolas ou blocos carnavalescos deveriam indicar uma representante de sua escola para o concurso. Se não mandasse, a escola poderia sofrer penalidade durante o desfile ou multa em dinheiro. Então o movimento foi gigantesco. E aí surge o nome daqui, surge o nome dali. Nesse concurso tinham 106 meninas e meu número era 103, gente. Eu fui uma das últimas do último dia da primeira eliminatória, né?

Eu fui representando a Em Cima da Hora. Mas, na verdade, eu não estava muito a fim de desfilar. É que no ano anterior, eu era passista na Mangueira e fazia parte do grupo show da escola. E no fim de 2022 teve o primeiro mini desfile do grupo especial na Cidade do Samba, e quem foi convidado a participar foi o grupo show. E o uniforme estipulado para o dia era um body cavado da Mangueira.

E eu me sinto bem com roupas assim, todo mundo estava usando roupas assim... Mas um vídeo meu que gravaram foi parar no Facebook e ai esquece. Por isso que todo mundo abandonou essa rede social, porque ela só serve para o ódio... E tudo que as pessoas comentaram sobre mim, entrou na minha vida de uma forma que eu não conseguia mais fazer nada. As pessoas acabaram descobrindo o meu endereço, meu e-mail, meu telefone, me ameaçaram de morte... tudo por conta de um vídeo de 15 segundos. E assim, eu não estava fazendo mal para ninguém. Então, eu comecei a ficar triste por conta do carnaval. Eu já tinha passado por tanta coisa. Já fui expulsa, já me desmereceram, já riram de mim, fizeram coisas horríveis comigo. Eu não preciso disso, sabe? E aí eu desfilei... Foi meu primeiro ano como rainha da ala de passistas da Em Cima da Hora. E eu pensei que seria minha última. Porque eu sempre quis, sabe? Ser destaque na minha escola. Então eu desfilei, mas assim que terminou o desfile, eu fui embora para casa sem falar com ninguém. Fiz uma postagem no Instagram e saí de todas as redes sociais, de tudo.

As pessoas só conseguiam falar comigo pelo WhatsApp de vez em quando, porque eu também não respondia. E só em quando começou esse movimento para poder indicar alguém para o concurso, que eu realmente voltei ativa nas redes sociais. Mas isso porque o meu diretor, o Mário (Mendonça), botou uma pressãozinha. Eu falei: “Você não tá vendo tudo que eu já passei? Lá vai ser muito pior, porque o negócio vai passar ao vivo no YouTube, um monte de mídias do Carnaval gravando e sai reportagem daqui, essa reportagem dali...”. Ele ficou mais de duas horas insistindo para eu ir, até conseguir me convencer.

Todo mundo que presenciou, viu o quanto eu era diferente das outras candidatas e o quanto isso emocionou várias outras pessoas. O meu discurso não tocou somente mulheres gordas, ele tocou todas as pessoas que já sofreram qualquer tipo de preconceito na vida. Todos os relatos que eu ouvi me fizeram entender que era preciso pisar naquele palco para falar para alguém que realmente quisesse ouvir, né?

Até hoje as pessoas me perguntam se eu vou voltar a competir. As pessoas me param para poder dizer que o meu momento no concurso foi um divisor de águas. A única outra pessoa que teve coragem de fazer diferente também é a Viviane de Assis, que é uma passista com nanismo. É um número pequeno, mas você já tem duas pessoas como referência de corpos diferentes participando do palco que é exposto para o mundo inteiro, né?

O discurso durante o concurso da Corte.
O discurso durante o concurso da Corte.
O apoio da comunidade sempre acompanhou a passista.
O apoio da comunidade sempre acompanhou a passista.

GiovannaVocê teve um problema com a roupa também no concurso, né? Como isso aconteceu?

GeorgiaEntão, no início, quando você vai se inscrever para o concurso, eles tiram suas medidas. Eu não pensei que eu teria problema, mas logo no primeiro dia das eliminatórias já me senti muito desconfortável porque o biquíni não era do meu tamanho e isso aconteceu ficou acontecendo até a terceira eliminatória. Só que a terceira eliminatória foi a pior de todas, porque o biquíni era extremamente menor do que eu.

Lá no concurso, se aparecer alguma parte íntima sua, você é desclassificada na hora, né? Então, muitas meninas foram desclassificadas logo na primeira eliminatória, justamente porque o biquini correu para o lado, apareceu um seio, acabou desamarrando e caindo... Vários acidentes. Comigo não foi diferente, mas eu tenho uma coisa que, se eu estou me apresentando, eu tenho que dar o meu melhor, né? E se eu não consigo dar o meu melhor eu fico me culpando a todo momento.

E aí imagina eu não conseguir dar o meu melhor por conta de uma roupa e não por conta do meu desempenho? Porque eu cara assim que eu passei da primeira eliminatória eu falei agora ninguém me segura, esse mundo é meu! Só que, quando eu peguei o biquíni, eu falei: “Cara, não é possível. Isso não é para mim”. Eu chorei, gritei muito com as pessoas, que é uma coisa de que não me orgulho... Mas eu estava tão transtornada, porque não era possível. Eu já ter sido humilhada tantas vezes e continuar sendo humilhada, sabe?

E não que alguém tenha feito isso propositalmente, mas eu não consigo compreender como o único biquíni diferente não veio do tamanho certo. Trouxeram um de tamanho M, não era nem G. De última hora conseguiram trocar por um G, que não melhorou muito, mas ainda assim eu fiz o que pude. Tanto que tem algumas fotos minhas depois que eu desci do palco que eu estou com a cara toda manchada de choro,. Eu tinha certeza que o meu peito tinha aparecido, que iam me desclassificar. Eu passei todo o intervalo até o resultado chorando dentro do camarim. Hoje eu olhando, sabe, foi uma coisa tão pequena, mas que significou tanto para mim que a minha vontade era de largar tudo. Pedir para me desclassificarem e acabar por ali mesmo...

Georgia Chagas, em registro do roteiro ilustrado.
Georgia Chagas, em registro do roteiro ilustrado.

Corpo, ancestralidade e liberdade

GiovannaEu estou pensando muito no tema do nosso podcast, que é a freira. Na igreja tem muito essa ideia de o corpo da mulher ser sagrado e estar todo coberto. Já no carnaval sagrado é mostrar o peito, é mostrar o corpo, mas com uma outra representação...

GeorgiaEu acho que a gente cultua muito a forma como entende os corpos negros dentro do carnaval. Já tivemos cenas como a Lucinha Nobre, na Portela em 2020, “dando a luz” a um bebê. Mulheres com o peito de fora... Isso é uma representação real da nossa raiz, da nossa ancestralidade. Uma representação livro do que nós éramos antes de ser colonizados.

E é realmente o oposto do que as pessoas julgam que é certo, que a gente tem que se manter escondida, que somente quem a gente casa que pode ver nosso corpo. A gente compreende que se não correr atrás da nossa própria liberdade, ninguém vai dar pra gente.

Por outro lado, as pessoas sexualizam muito o corpo negro. E as pessoas acham que tudo bem, só porque a gente tá mostrando alguma parte do corpo. Mas não é porque eu tô mostrando que você pode tocar em mim, que você pode se sentir livre para falar alguma coisa. Isso não te dá essa abertura.

O ato de se libertar deveria ser libertador, mas as pessoas acabam aprisionando a nossa liberdade. Alguns corpos mais do que outros.

Georgia, aos 19 anos, fazendo publicidade pela Paraíso do Tuiuti.
Georgia, aos 19 anos, fazendo publicidade pela Paraíso do Tuiuti.
Georgia desfilando pela Em Cima da Hora (2024).
Georgia desfilando pela Em Cima da Hora (2024).

LorenaEm que momento você começou a se sentir uma pessoa mais livre para usar decote, para usar as roupas que queria. Porque você falou que não teve muitas referências, né?

GeorgiaEu não lembro exatamente em que momento eu passei a me vestir da forma que eu que eu me visto. Mas eu lembro de ter tido uma conversa com uma colega minha de escola que eu falei para ela que eu não tava me sentindo bem com o short que eu tava usando, porque eu achava que minha perna tava muito grande e não queria que as pessoas olhassem, né? E aí eu ia na secretaria pedir uma camisa maior para poder tampar a minha perna.

E aí ela falou: “Cara, mas sua perna é normal, o que você tá querendo esconder?” Aí eu fiquei pensando naquilo dia todo. Eu era muito nova, acho que eu tinha uns 15, 16 anos assim na época. E aí eu fiquei pensando nisso. E assim, era um short normal de educação física.

AndriolliMas as pessoas olhavam de um jeito que te deixava desconfortável?

GeorgiaNão, pior que não. Ou pelo menos eu não percebia. Somente depois assim dos 17, que realmente meu corpo foi ganhando forma, que eu fui engordando mais um pouquinho, que as pessoas passaram a soltar um comentário aqui e ali. Então, desde que eu entendi que eu posso me vestir de qualquer forma, que eu passei a utilizar mais a minha sensualidade. Consegui compreender que eu era uma mulher bonita, independentemente do meu cabelo, do meu corpo, da minha cor. Eu era uma mulher bonita e eu tinha que me enxergar como uma mulher bonita, né? Porque eu entendi que se eu não me visse dessa forma, ninguém mais me veria.

O concurso da corte que marcou a vida de Georgia.
O concurso da corte que marcou a vida de Georgia.
Georgia Chagas, em imagem do roteiro ilustrado.
Georgia Chagas, em imagem do roteiro ilustrado.

Bexiga e bandeira têm meu coração

GiovannaPara encerrar, o bate-bola veio antes ou depois de tudo isso?

GeorgiaFoi antes! Só que antigamente eu tinha pavor, pavor, pavor. Onde eu morava, em Belford Roxo, é muito comum ter na Zona Norte e algumas turmas na zona Oeste. Mas onde eu morava na minha rua assim, tinha uns meninos que se reuniam para sair de gorila. Nessa época eu não fazia a menor ideia do que era turma de bate-bola.

Até porque é um pouquinho diferente. A turma que sai de gorila não sai de bexiga e bandeira ou de bexiga e sombrinha. E aí quando eu fui fiquei um pouquinho mais velha, encontrei um mundo gigante.

A primeira fantasia que eu coloquei na minha vida foi uma fantasia de Arlequina. Meu Deus! Eu rio até hoje disso. Foi em 2011, 2012. E aí eu lembro que me juntei com umas amigas e falei para a gente fazer uma turma. A gente não conhecia nada, todo mundo nova. A gente só conhecia uma costureira. Mostramos uma foto para ela e ela falou: “Eu não sei fazer isso”. Porque realmente é muito difícil de achar uma costureira que faz fantasias de Bate Bola. É muito difícil.

No final, ela falou que só conseguia fazer algumas fantasias. A gente juntou, comprou um tecido preto e um vermelho, juntou uma coisa na outra, fez tipo um quadrado assim, né? Metade de uma coisa e metade de outra. Fez uma luva, botou uma máscara, uma meia e acabou. E a gente saiu assim para rua. Todos os dias o carnaval sai com a mesma roupa, para o mesmo lugar. E aí eu comecei a seguir vários perfis que divulgavam fantasias, que faziam isso, que faziam aquilo. Falei: “Cara, agora vou botar para frente, eu vou montar uma turma, eu vou fazer!”. Eu desse tamanho querendo montar uma turma.

A gente tinha mais ou menos 15 meninas assim. Porque era todo mundo da mesma sala, da escola. Todo mundo morava perto uma da outra na época. Mas depois, elas não queriam, só que eu queria muito! Porque eu gostei muito da experiência.

Só que, gente, uma criança não consegue resolver nada. Eu tentei conversar com minha irmã para poder sair comigo, e ela “’cara, eu não gosto disso “. Aí fiquei triste até, mais ou menos, 2014. Aí eu tava um pouquinho mais velha. Não muita coisa, mas um pouquinho mais velha. Eu conheci alguns deputados que estavam com proposta assim relacionada ao carnaval, fui em alguns comícios, eu conheci outras pessoas do meio...

Aí em 2016, se eu não me engano, eu saí com mais cinco meninas, a gente saiu de uma fantasia de tigresa.

Mesmo procurando comprando, achando contato, a gente não tinha meios assim de conseguir fazer uma bandeira de qualidade, comprar uma bexiga de qualidade. E aí foi o último ano que a gente tinha saído, porque depois disso as meninas não quiseram mais também. E aí fiquei tentando, tentando, tentando... Eu fiquei triste, desacreditada e aí no final de 2021 eu resolvi voltar. Por que eu já estava mais velha, né. Já conhecia as pessoas de carnaval.

Então eu falei: “Esse pessoal que faz fantasia de ala, eles vão fazer fantasia de bate-bola? Vão fazer sim “. Mas as pessoas que eu conheço não gostam de sair de bate-bola porque é muito quente. E é uma fantasia muito grande, pesada e tal. Enfim, é cansativo, né? E aí eles não elas não queriam sair.

GiovannaSe é grande, pesado, cansativo, por que que você gosta?

GeorgiaEu não faço a menor ideia. Eu gosto, eu me encanto, porque é tanta cor, tanto brilho. Você é poderoso, sabe? As crianças ficam te olhando assim...

AndriolliE uma das coisas mais legais de Bate-Bola é ninguém saber quem você é...

GeorgiaÀs vezes pode ser até alguém que você conhece, a pessoa chega perto de você, você fica assim: “Quem é essa pessoa? Quem é?” É muito legal isso. Eu amo Bate Bola, eu amo bexiga... Meu Deus, eu acho que eu nunca trocaria para sombrinha, apesar de eu achar muito muito bonito. Mas, cara, bexiga e bandeira têm meu coração. Não tem como você fazer uma saída sem a bexiga, você precisa bater ela no chão, sabe? Nossa, e quando os fogos estouram, o som lá no alto...

Em 2022, só tivemos carnaval na metade do ano. E como a gente estava determinado a voltar do nada, de dezembro para janeiro, não dava tempo de fazer uma fantasia realmente elaborada. Então, a gente fez um kit para a rua. Kit é a roupa que você usa antes de colocar a fantasia. Então, vamos supor, que o dia da saída seja no sábado. Aí você começa a fazer as coisas da saída meio-dia, 2 horas da tarde. Tá lá rolando som, churrasco, bebida, que não sei o quê.

Você precisa de uma roupa confortável portável para ficar no evento. E aí você usa o kit: blusa, cropped, short, meia, luva e tênis. E aí você fica lá, curtindo o vento, até da hora da saída. Aí na hora da saída você vai lá, põe a fantasia e sai. E naquele ano fizemos o kit inspirado em Cobra Kai, que estava passando na Netflix. Só que a costureira não entregou... A gente levou uma volta da costureira. Mas isso não impediu a gente de ir para rua.

Então, na correria, a gente comprou fogos, essência, bexiga, fez a bandeira. Foi uma loucura, mas foi muito bom, de verdade. O nome da turma é As Karalhadas de Pilares, porque a gente não bate bem da cabeça. E são só mulheres. Só mulheres.

Turma As Karalhadas com sua fantasia de Cobra Kai (2021).
Turma As Karalhadas com sua fantasia de Cobra Kai (2021).
Georgia Chagas, em imagem do roteiro ilustrado.
Georgia Chagas, em imagem do roteiro ilustrado.

A gente tem uma coisa de não sair com turma masculina. Algumas são muito parceiras, mas geralmente quando a turma junta, quem determina tudo o que você vai fazer são os homens. E aí você não tem poder de escolha, não tem poder de decisão. E eu nunca gostei disso, porque eu mudo de ideia toda hora.

Então assim, hoje eu posso estar pensando numa fantasia e aí amanhã eu tiver alguma inspiração do nada e falar: “Vou trocar tudo”! E aí, às vezes, as ideias não batem ou eles querem fazer tudo do jeito deles e ninguém sai feliz, né?

AndriolliVocês são bate-bolas ou bate-boletes?

GeorgiaA gente se considera bate-bolete. Porque a gente sai de bexiga e bandeira. Mas, se você levar em consideração o que as outras meninas acham, elas vão dizer para vocês que é fantasia. Porque a gente prioriza mais fantasia do que relacionar com bate-bola. Tem algumas fantasias que elas acabam não fazendo muito sentido de bate-bola, né? Às vezes eu tenho um tema incrível, mas o desenvolvimento dela, você não consegue entender o que é. Não passa a mensagem verdadeira do que é o tema.

E aí a gente sempre tenta trazer para um para um lado onde as pessoas vão olhar e entender o que é aquilo. Mas eu não consigo desapegar, realmente eu não consigo desapegar de bate bolete.

Georgia Chagas com fantasia de bate-bolete.
Georgia Chagas com fantasia de bate-bolete.
Georgia Chagas com fantasia de bate-bolete.
Georgia Chagas com fantasia de bate-bolete.

Por que a freira volta?

GiovannaPara encerrar, pensando na freira do nosso podcast. Por que ela volta?

GeorgiaEu tenho alguns pensamentos sobre isso. No momento que a gente vive hoje, dependendo de quais lugares a gente frequente, a experiência pode não ser tão boa. Você pode sair para curtir, para viver e ver coisas horríveis na rua. Isso pode fazer você voltar e pensar que você nunca deveria ter saído.

AndriolliMas será que isso seria suficiente para ela voltar? Desistir assim? Porque você contou várias histórias terríveis, mas não desistiu.

GeorgiaAgora você plantou uma semente na minha cabeça. Olha... Eu acho que não. Não faria ela desistir, porque acredito que, para muitas coisas de nossa vida, quando a gente se sente mais fraco e sente que nada mais faz sentido, tem esse pensamento de desistir, não querer mais, não correr mais atrás, deixar de lado, sempre tem alguma coisa que chama de volta.

Então, pode ser que no próximo ano ela volte mais 5 dias. Eu acho que a vida é muito incerta. Então, cada hora é um momento novo e um momento que a gente não pode adivinhar, nem saber o que que vai acontecer.

Entrevista gravada em 2024 e publicada no roteiro ilustrado de Outros Carnavais, páginas 126–146.

Imagens reproduzidas da seção da entrevista. Crédito no roteiro: arquivo pessoal. Registro da entrevista no Lunar: Andriolli Costa.